DestaquesEsporteParaíba

Luto em momentos felizes: por que a ausência se faz presente

Psicologia explica por que momentos felizes também podem ser atravessados pela ausência de quem já partiu

Diferente do que se acreditava até há algum tempo, o luto não é um processo que acaba com o tempo. De acordo com o Modelo de Processo Dual de Enfrentamento do Luto (MPDL), proposto pelos pesquisadores e psicólogos Margatet Stroebe e Henk Schut, da Universidade de Utretch, na Holanda, é natural que existam momentos de retorno à dor, também nomeados como gatilhos. E nem sempre eles estão relacionados a momentos óbvios, como o dia de finados, mas aparecem de forma inesperada em situações felizes.

A conquista de um emprego tão esperado, a formatura sonhada, a compra da casa própria ou o nascimento de um filho podem trazer, junto com a alegria, uma ausência silenciosa: a de quem já não está presente para compartilhar aquele momento.

Esse tipo de experiência trata-se de um luto que surge no meio da vida acontecendo e, muitas vezes, não encontra espaço para ser legitimado socialmente, já que o contexto pede celebração. Em meio a aplausos, fotos e conquistas, há também saudade, memória e, por vezes, um sentimento de incompletude.

De acordo com a psicóloga Simône Lira, especialista em luto do Grupo Morada, esse fenômeno é uma manifestação natural do vínculo afetivo construído ao longo da vida. “Momentos importantes funcionam como gatilhos emocionais porque carregam significado. São marcos que gostaríamos de dividir com pessoas que foram essenciais na nossa trajetória. Sentir essa ausência não diminui a alegria da conquista, mas mostra o quanto aquela relação foi importante”, explica.

A especialista também destaca que esse tipo de luto pode ser mais difícil de reconhecer, justamente por acontecer em contextos felizes. “Muitas pessoas se sentem até culpadas por ficarem tristes em momentos que deveriam ser apenas de celebração. Mas o luto não segue uma lógica linear. Ele pode aparecer de forma sutil, inesperada, e coexistir com sentimentos positivos”, afirma.

Na prática, isso pode acontecer em diferentes fases da vida adulta. No nascimento de um filho, por exemplo, é comum sentir a falta de um dos avós, que fez a infância da pessoa ser tão especial. Em uma formatura, a ausência de quem incentivou os estudos pode se tornar mais evidente. Promoções profissionais ou a conquista da casa própria também podem reacender memórias de pessoas que fizeram parte dessa caminhada, mas que não estão presentes fisicamente para celebrar.

Reconhecer esse tipo de sentimento é um passo importante para lidar com ele de forma saudável, explica Lira. “Dar espaço para essas emoções é fundamental. O luto não precisa ser escondido para que a alegria exista. Os dois podem caminhar juntos, porque fazem parte da mesma história de afeto e construção de vida”, reforça.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Botão Voltar ao topo