Luto digital: Redes sociais assumem papel de memorial para os que ficaram

Ambiente virtual se torna espaço para processamento coletivo do luto e preservação da memória
As redes sociais causaram um novo comportamento social diante da morte, o luto digital. Através dessa nova dimensão do luto, um fenômeno tem chamado a atenção de especialistas: o crescimento exponencial no número de seguidores nos perfis de redes sociais de pessoas falecidas, principalmente famosos ou pessoas que faleceram em condições chocantes. O ambiente virtual se transformou em um espaço coletivo de processamento da dor e preservação da memória.
Simône Lira, psicóloga do Grupo Morada da Paz, explica que o aumento repentino de seguidores e comentários em postagens em contas de pessoas falecidas funcionam como um mecanismo de enfrentamento coletivo. Isso ocorre quando uma tragédia ganha repercussão e o perfil da vítima passa a ser um ponto em comum para a expressão da empatia e do choque, pois o ser humano busca validação para seus sentimentos em comunidade.
“O luto digital permite que as pessoas compartilhem a dor de forma imediata. Seguir a conta de alguém que partiu de forma trágica ou repentina é uma tentativa de criar uma conexão com aquela história, de humanizar a notícia e de fazer parte de um ritual de despedida coletivo, algo que o ambiente físico muitas vezes não consegue comportar na mesma velocidade”, esclarece Lira.
Um estudo conduzido pelo Oxford Internet Institute (OII), da Universidade de Oxford, estima que até 2070, o número de perfis de pessoas falecidas no Facebook possa superar o de usuários vivos. Desta forma, as plataformas digitais assumem não só o papel de memorial para entes queridos, mas também um registro histórico da humanidade.
Para responder a essa demanda crescente, redes sociais como Instagram, Facebook e o “X” (antigo Twitter) criaram políticas específicas para gerenciar o legado digital dos usuários. O Instagram e o Facebook, por exemplo, permitem a transformação da conta em um “Perfil em Memorial”.
Ao ser transformado em memorial, o perfil recebe a expressão “Em memória de” ao lado do nome do usuário. O conteúdo compartilhado pela pessoa permanece visível para o público com quem foi compartilhado, mas a conta fica protegida contra invasões e alterações, desta forma ninguém pode fazer login, remover publicações ou alterar as configurações de privacidade.
Esse recurso tem sido fundamental para os entes queridos que ficam. Pesquisas sobre comportamento digital e perda, apontam que o acesso a fotos, vídeos e textos antigos funciona como uma “presença continuada”, um conceito da psicologia que valida a manutenção de um vínculo simbólico com quem morreu.
“Para a família e amigos próximos, o perfil transformado em memorial vira um espaço de acolhimento. Poder ler mensagens trocadas com a pessoa querida e revisitar momentos felizes ajuda a amenizar a saudade e a ressignificar a dor, transformando o espaço que antes era de atualização diária em um santuário digital de memórias”, pontua a psicóloga Simône Lira




