Futuro presidente do TJPB, José Ricardo Porto faz reflexão sobre preconceito contra nordestinos: “A palavra fere. A retratação nem sempre cura”

Em artigo, desembargador critica manifestações de intolerância regional após eleições, questiona pedidos de desculpas motivados pela repercussão negativa e defende responsabilidade no uso da liberdade de expressão.
O desembargador José Ricardo Porto, eleito por aclamação para presidir o Tribunal de Justiça da Paraíba (TJPB) no biênio 2027/2028, traz uma reflexão sobre preconceito, intolerância e responsabilidade no uso das palavras. Em artigo intitulado “A palavra fere. A retratação nem sempre cura”, o magistrado aborda as manifestações de hostilidade contra o Nordeste que costumam ganhar força após eleições nacionais e faz um alerta sobre os limites da liberdade de expressão.
Com posse prevista para fevereiro de 2027, José Ricardo Porto chama atenção para o fato de que divergências políticas não podem servir de justificativa para ataques à dignidade de pessoas ou comunidades inteiras. Segundo ele, manifestações depreciativas contra os nordestinos representam uma forma de intolerância que ultrapassa o debate democrático.
O desembargador ressalta que o Nordeste tem uma contribuição histórica, cultural e social fundamental para o Brasil, mas pondera que defender o respeito à região não significa estabelecer qualquer superioridade sobre as demais partes do país.
“Defender o respeito ao Nordeste não significa diminuir qualquer outra região. Significa defender o respeito ao Brasil inteiro”, destaca.
Na avaliação do magistrado, o voto de um cidadão nordestino possui a mesma legitimidade e dignidade do voto de qualquer brasileiro, independentemente de sua preferência política. Ele defende que a democracia exige respeito à vontade popular, inclusive quando o resultado das urnas contraria as expectativas de determinados grupos.
Retratação não significa necessariamente arrependimento
Um dos pontos centrais do artigo é a diferença entre reconhecer sinceramente um erro e pedir desculpas apenas quando uma declaração ofensiva provoca repercussão negativa.
José Ricardo Porto questiona a sinceridade de determinadas retratações públicas e observa que, muitas vezes, os pedidos de desculpas aparecem somente depois da indignação coletiva e das consequências para a imagem de quem praticou a ofensa.
“Uma coisa é lamentar a dor que causamos aos outros. Outra, muito diferente, é lamentar o prejuízo que nossas próprias palavras causaram a nós mesmos”, pondera.
Para o desembargador, nem toda retratação representa uma mudança de consciência. Em algumas situações, pode ocorrer apenas uma mudança de discurso, sem que o preconceito que motivou a manifestação tenha sido efetivamente superado.
Ele reconhece que todos estão sujeitos a erros e que pedir perdão é uma atitude de humildade. Entretanto, enfatiza que o arrependimento verdadeiro precisa ser acompanhado de reconhecimento da injustiça, disposição para reparar o dano e mudança de comportamento.
Liberdade de expressão exige responsabilidade
O futuro presidente do TJPB também destaca que a liberdade de expressão é uma conquista indispensável à democracia, mas não deve ser confundida com autorização para humilhar, ofender ou disseminar preconceitos.
“Discordar é legítimo. Criticar é necessário. Debater é saudável. Mas transformar divergências em agressões pessoais ou preconceitos regionais representa uma preocupante deterioração da convivência democrática”, afirma.
Em outro trecho, o magistrado chama atenção para a necessidade de recuperar a prudência no uso das palavras, lembrando que uma declaração ofensiva pode até ser explicada, corrigida ou perdoada, mas não pode ser simplesmente apagada como se nunca tivesse existido.
O artigo também recorre aos ensinamentos de Jesus Cristo sobre perdão, humildade e amor ao próximo para defender que a verdadeira transformação humana não se limita às aparências, mas começa na consciência e se manifesta nas atitudes.
Ao concluir sua reflexão, José Ricardo Porto deixa uma mensagem que sintetiza o propósito do texto e ultrapassa o ambiente político e eleitoral:
“Afinal, o clamor público pode levar alguém a se retratar, mas somente a consciência da injustiça cometida pode conduzir ao verdadeiro arrependimento. Porque pedir desculpas é um ato de palavras. Arrepender-se verdadeiramente é um ato de consciência.”
A manifestação do desembargador coloca em discussão um tema que permanece atual na sociedade brasileira: o respeito às diferenças, a convivência democrática e a responsabilidade de cada cidadão pelas palavras que utiliza. Uma reflexão especialmente importante em um cenário no qual as redes sociais ampliam o alcance das declarações e também o impacto das ofensas.




