Agosto Lilás e as dores invisíveis do luto por feminicídio

Especialista explica a complexidade do processo de luto vivenciado por famílias vítimas da violência de gênero e destaca a importância do acolhimento sem julgamentos
Este mês é marcado em todo o país pelo Agosto Lilás, uma campanha nacional de conscientização voltada para o enfrentamento e a prevenção da violência contra a mulher. Enquanto o debate público ganha força com estatísticas, políticas públicas e alertas sobre os sinais de relacionamentos abusivos, existe uma dimensão silenciosa e devastadora que permanece no ambiente familiar: a dor das pessoas que ficam após um feminicídio.
O luto decorrente de um crime de gênero é marcadamente diferente de outros processos de perda. Isso porque não é apenas a despedida abrupta de uma filha, mãe, irmã ou amiga, mas um rompimento violento provocado por uma agressão intencional. Da noite para o dia, familiares enlutados são lançados em um turbilhão que envolve a dor da perda, a burocracia dos órgãos policiais, a cobertura midiática e o desgaste de batalhas judiciais.
A psicóloga do Cemitério e Crematório Morada da Paz, Simône Lira, explica que a natureza dessa perda impõe camadas profundas de sofrimento emocional ao processo de restauração da vida. “O luto por feminicídio é classificado como um luto traumático e altamente complexo. A família não enfrenta apenas a perda física de uma pessoa amada, mas também o choque da violência, o sentimento de impotência, a revolta diante da injustiça e, muitas vezes, da tentativa de culpabilização da própria vítima. Há uma ruptura repentina e trágica no convívio com o ente querido, o que torna a assimilação do fato extremamente dolorosa e demorada”, pontua a psicóloga.
Segundo a psicóloga, o papel da comunidade e dos amigos mais próximos deve ser o de oferecer suporte prático e acolhimento humano, sem qual quer espaço para especulações ou críticas. “Para acolher uma família que passa por esse tipo de dor, a empatia e a escuta sem julgamento são indispensáveis. Frases feitas ou tentativa de buscar justificativas para a tragédia só aumentam o sofrimento. A rede de apoio precisa oferecer presença real, auxílio prático nas tarefas do cotidiano e, acima de tudo, um espaço seguro onde os enlutados possam expressar sua raiva, sua tristeza e sua indignação sem medo de serem censurados”, orienta.
Além disso, a especialista faz um alerta indispensável sobre a circulação de conteúdos sensacionalistas: “Outro ponto crucial é termos responsabilidade e empatia com o que é compartilhado. Propagar vídeos, fotos ou detalhes explícitos do crime não contribui para a conscientização e amplia o trauma dos sobreviventes. Proteger a memória da vítima, não disseminar cenas de violência e garantir o direito dos familiares a rituais de despedida preservados e respeitosos é uma forma essencial de cuidado, respeito e humanidade”, reforça Simône.
Transformando a dor em memória
A reconstrução da vida após uma perda violenta não significa esquecer a pessoa que partiu, mas encontrar caminhos para ressignificar a saudade e honrar a sua história. Muitas famílias encontram forças no engajamento social, na busca por justiça e no apoio mútuo através de grupos de acolhimento psicológico especializados em perdas traumáticas.
Neste Agosto Lilás, a sociedade também é chamada a olhar com compaixão e solidariedade para os sobreviventes desse tipo de violência. Garantir suporte e acompanhamento psicológico é o primeiro passo para ajudar essas famílias a atravessarem um dos momentos mais difíceis de suas vidas.




